sábado, 19 de abril de 2008

TREINO SHAMBHALA – PRIMEIRA PARTE
“A magia do cotidiano”
7. – 9.3.2008


MONOLOGO INTERIOR DUMA PRINCIPIANTE DA MEDITAÇÃO

SEXTA. 18h30

Um dia longo, estou cansada. Vou ? não vou ? Fico em casa, saio para ouvir música com amigos ou vou ao treino Shambhala ? Geralmente quando é dificil decidir-se por uma coisa, fica-se depois muito contente por se ter superado a preguiça. Então vou !

É a terceira vez que estou neste centro, jà é quase familiar. A entrada, o “bar”, a biblioteca no primeiro andar com essa foto carismática (não posso chamar-lhe de outra maneira ) de Chögyam Trungpa e depois as salas de meditação. Cada uma com o seu próprio carácter. A casa é antiga o que quer dizer que tem salas espaçosas, de mais de três metros de altura, as portas e as janelas de madeira pintada, tudo remodelada com gosto, tudo esteticamente harmonioso. Um ambiente muito agradável. Actualmente já sei que uma das habituais do centro é arquitecta e foi ela que desenhou os planos e dirigiu as obras de remodelação.
Fui recebida muito bem, com abraços e sorrisos, todos tratam-se por “tu” ( o que não é habitual quando se encontram pessoas que não se conhecem, de idades, profissões e origens diferentes)
E agora, entrar na sala maior, escolher um sitio.... de preferência na última fila: ao menos não há ninguém nas minhas costas ... A sala está cheia, cada pessoa instalada na sua almofada no chão, O ambiente é de curiosidade e expectativa. E... quem teria dito que a meditação tem também um aspecto estético?!... há muitíssimas mantas e cobertores de lã em todas as cores, todas bonitas. Na verdade, vão fazer falta porque a sala é grande e alta e provavelmente o orçamento não dá para excesso de aquecimento. De facto estou sentada ao lado duma janela e o radiador, ali, está apagado. Bom, até é agradável escondermo-nos numa manta, sempre dá um certo grau de segurança .


Começamos com uma palestra sobre os principios fundamentais. Óptimo, no mundo das palestras sinto-me segura, conheco os códigos de comportamento...

A META FUNDAMENTAL DE QUALQUER SER HUMANO É SER FELIZ E EVITAR O SOFRIMENTO Hmmmmm .......

AS ILUSÕES CRIAM O SOFRIMENTO: bem dito, mas quem me salva das minhas ilusões ? Pergunta idiota! Eu mesma naturalmente. Senão, quem ?

O CAMINHO PARA ACABAR COM AS ILUSÃES E CHEGAR À RELIDADE É A MEDITACÃO
A meditação serviria para compreender , ou melhor dito, sentir , que os pensamentos são só pensamentos e não realidades , que o cérebro pensa sem nunca parar , mas se conseguirmos compreender como funciona o nosso cérebro podemos chegar a frear o ritmo frenético do pensamento e aprender a ver a realidade por detrás das ilusões. Hmmm, mas isso não é a morte de toda a imaginação e creatividade ??? Bom, paciência, já vou descubrir.

QUANDO ENCARARMOS O MEDO, FUNDE COMO A NEVE AO SOL – É engraçado, as metáforas da neve são as mesmas no Tibete e na Áustria :-)

O MOMENTO DA FELICIDADE E DA LIBERDADE : QUANDO NÃO SENTIMOS SAUDADES DE NADA E ESTAMOS COMPLETAMENTE NO PRESENTE
Ah, pois isso sim que é o meu tema. Quem me dera nao sentir saudades. Em realidade estou aqui para me esquecer desse... STOP.

Esses momentos de felicidade e liberdade total, eu conheço: e quando se conseguir contemplar uma árvore, uma catarata, o mar, uma gota de água numa folha até nos esquecermos de nós mesmos e sentir-mo-nos uma parte de ... não sei ... talvez do universo. Sempre pensei que isso era uma vivencia estética e, de facto, faz muito pouco tempo que finalmente encontrei algumas pessoas que comprendiam o que estava a dizer ao falar desse tipo de vivências – e foram todos pintores !! Então pensei que precisava-se de um certo temperamento de artista para poder sentir essas coisas. Mas se for isso o caminho para chegar à sabedoria e à tranquilidade interior, então ando neste caminho há muitissimos anos ......

Das muitas coisas inteligentes que dizia o Carlos Manuel sem nunca realizá-las ele mesmo na sua propria vida, foi “procurar ambientes propicios à felicidade”. Pois é isso mesmo que estou a fazer.

Cheguei a casa tarde, mas curiosamente menos cansada


SÁBADO


Às 7h toca o despertador, tenho vontade de o deitar pela janela e dormir pelo menos 3 horas mais. Não sei porque é que, neste pais, todos gostam de seguir o ritmo biológico das galinhas .... O pior é no Inverno porque nos levantamos, de facto, de noite, quando nem sequer as galinhas estão despertas .... Vou dormir meia hora mais e depois tomo um táxi… ninguém disse ontem que a meditação só fazia efeito quando chegarmos ao centro a pé......

8h30: Recebemos um pequeno-almoço excelente feito por alguns membros do centro que lá apareceram muito cedo (parece que também há galinhas budistas)....



A MEDITACÃO NÃO TEM NADA DE MÍSTICO OU TRANSCENDENTAL, É UM TREINO DA MENTE PARA CONSEGUIR PRESENÇA E ATENÇÃO.

A meditação é, de facto, um exercício muito difícil. Ninguém, que ainda não tenha experimentado, acreditaria o difícil que é tentar disciplinar a sua mente a concentrar-se só no momento presente. A mente tem algo como uma reacção de pânico, em consequência da qual pode-se chorar ou rir. Não é preciso “nada mais” que “fazer voltar” a mente a pensar só na própria respiração e observar os numerosos pensamentos e emocões que aparecem ..... e aparecem muitos !!!

A NATUREZA ÍNTIMA DO CORAÇÃO HUMANO É A TRISTEZA: A FORÇA CONSISTE EM MANTER O CORAÇÃO ABERTO, AGUENTAR A TRISTEZA E TER COMPAIXÃO POR TODOS OS SERES . Programa muito exigente !Mas é verdade, não há nada mais vulnerável, e ao mesmo tempo mais forte, que um coração aberto...

PARA SE CONSEGUIR FELICIDADE É PRECISO FICAR EM CONTACTO PERMANENTE COM O PRÓPRIO CORAÇÃO. Pois que a psicologia diz a mesma coisa: o segredo da força não é levantar muralhas para se proteger, mas é ter suficiente coragem e auto-estima para se poder expor aos outros e ao mundo ....

Muitas vezes nao ficamos em comunicação com nós mesmos por causa de:
Falta de confiança --> categorizamos tudo e todos, fabricamos teorias , cultivamos arrogãncia e, de facto, lutamos contra nós mesmos.
A mente não é suficientemente forte para encarar a enorme intensidade do coracão --> não aceitamos partes de nós mesmos



E meditamos...... horas.
Nunca terei pensado que tivesse suficiente tranquilidade para ficar imóvel horas tentando não deixar escapar a mente para outros sitios. Mas, de facto, faz bem.

MEDITANDO REGULARMENTE CHEGA-SE DE MANEIRA INEVITÁVEL (inevitável, hmmmmm...) A DOMINAR A MENTE PARA CONSEGUIR

  • ESTABILIDADE (imagem da águia que voa, mas que nunca perde de vista o coelho. Imagem da presença e atenção total )
  • CLARIDADE E VITALIDADE (imagem da águia que vê até a cor dos olhos do coelho. Imagem da intensidade da percepção)
    E FORÇA ( sem a força da mente somos levados pela intensidade do coração, (pois disso sei algumas coisas !!)

    Depois falou-se dos obstáculos para chegar à tranquilidade da mente. Não os apontei porque os conheço e penso que vão aparecer como tema ainda em muitas sessões. Porque, na verdade, gosto tanto desta filosofia que vou fazer pelo menos os 5 primeiros treinos.
    A melhor frase do día foi:


NAO HÁ NADA PARA ANSIAR NEM PARA ESPERAR, TUDO ESTÁ AQUI


Também não se pode dizer que os “shambhalistas” não gozam dos prazeres da vida. O fundador do movimento, o Chögyam Trungpa foi uma figura multifacetada: ao lado de ser um importante lama tibetano, também foi artista (caligrafia, pintura, filmes, ikebana), psicólogo e não sei que mais … e por certo gozava de tudo o que este mundo oferece: nada de ascetismos.
A boa cozinha é parte integrante de tudo o que se faz neste centro. Para o almoço organizou-se um prato vegetariano dum restaurante índio, e depois de um dia longo, cheio, interessante, com muita energia, ainda integrámos a vida nocturna do sábado e fomos a un restaurante, impecável, no meio do “ Triângulo das Bermudas” que é uma das zonas de vida nocturna de Viena, que assim se chama porque dizem que muitas pessoas não apareceram mais. Nós, sim, que voltámos a aparecer, mas só depois de um jantar de primeiríssima qualidade, e de muito boa conversa e de muito riso.


DOMINGO

Depois de ficar na mesma posição muito tempo, qualquer movimento é bem-vindo. A tradição shambhala também criou uma forma de yoga, o Shamata-yoga. É, de facto, um tipo de resumo de várias formas de yoga, é curto, são apenas alguns exercicios, faz bem.

Chegou um momento, no domingo pela tarde, em que eu disse de mim para comigo “Ficaste maluca ?! O que é que estás a fazer aqui três dias, sentada e imóvel ou a andar lentamente de olhos fixos sempre no mesmo sítio sem fazer absolutamente nada ??!! Que a vida está fora desta sala ...... “ Mas, mesmo ao pensar isso, sentia-me muito bem e de facto não tinha nenhum “desejo de fuga”.


E depois houve a famosa questão do “ego”. Ainda nao consegui entender o conceito. Cada um tem uma definicão diferente e nenhuma aclarou-me nem minimamente. Os instructores sorriam e diziam “ vas ver que estas questões, com a experiência da meditação, tornam-se mais claras. A vivência não se explica, vive-se“

BOM, então até à próxima.... que o ego é o tema principal da segunda parte do “treino Shambhala”

Um comentário:

LuCe disse...

Com alguns anos de prática intermitente de meditação e/ou ioga consigo perceber muitas das coisas. Neste momento estou sem fazer nenhuma das coisas regularmente (e devia fazê-lo com regularidade).

Algumas experiências na meditação podem ser maravilhosas, mas também assustadoras. "Here open the gates of Heaven, here open the gates of Hell" - são exactamente as mesmas portas.
Muitas vezes parece-me que quem chega a determinadas experiências, já não pode voltar atrás. Quanto mais resiste, mais duros são os testes que à frente lhe aparecem.