sexta-feira, 17 de outubro de 2008

KATHARSIS NO BARREIRO


Há tres anos - passaram hoje exactamente 3 anos desde que morreste. É por amabilidade e compreensão do meu director que aqui estou neste dia, dois dias antes de começar as minhas ferias oficiais. Ele é uma das muitas pessoas positivas que me rodeiam. Uma das muitas pessoas que me permitiram reaprender que o mundo não é uma selva onde cada um ocupa-se só de si mesmo e também não é um deserto poblado apenas por duas pessoas - tu e eu - duas pessoas que já nem se amam, nem se compreendem, nem se respeitam, nem sequer se aguentam....... Mas duas pessoas atadas de pes e mãos pela desgraça da tua doença, pela minha incapacidade de dizer " basta", atadas por tantas coisas absurdas: as costumes, os medos, a situação material, atadas por tudo, excepto por amor ...

Em nossa relação não faltou o amor ou mas bem não faltou o que eu então considerava amor. Amei-te, odiei-te, não existem muitas emoções que não despertaste em mim. Vivi intensamente, banhei-me todos os dias em emoções fortes, uma vela encendida dos dois lados ...

Durante muitos anos foste o centro do meu universo, adorava-te. Mas chegou o dia que compreendi que me tinha entregado completamente e que pouca coisa ficava de mim e foi então que comecei o caminho para me re-encontrar. E tu voltaste ao teu inferno privado poblado dos fantasmas do teu passado, das recordações, da culpa que reconheceste mas que não consegueste remediar. Voltaste a este inferno que eu já não queria compartilhar contigo mas que sozinho não aguentavas.

Nunca tiveste a força de arrumar e finalmente abandonar este inferno que tu mesmo criaste. Sofreste como um cão mas preferias sofrer em condições conhecidas a fazer um passo no desconhecido. Um passo para tentar encarar os teus fantasmas que te perseguiam pelo mundo, um passo para te libertar, COBARDE, não o tentaste nunca. "Melhor um mal conhecido que um bem para conhecer" dizias. Quanto detestava estas frases ! A essencia da informação é : "agarra-te ao que tens por mais inadequado que fosse para ti, nunca tentes nada novo, e se por grandissima coincidencia algum dia chegares a ser feliz, não acredites e fuge."

Foi no momento que eu compreendi isso que nos teriamos que ter separado. Mas como tantos casais não o fizemos, por medo de ter que desfazer a nossa relação simbiotica, de ter que nutrir cada um as suas proprias raizes, folhas, flores. A nossa relação foi simbiotica mas em vez de dar energia um ao outro o que fizemos foi envenenar-nos mutuamente. Os dois juntos não ficamos mais fortes, no contrario cada um ficou mais fraco e mais fragil.

Foiste para mim como Dracula: romantico, misterioso, interessante, mas todos os dias bebias a minha sangue, a minha energia, a minha vida. E eu mesma afastei todas as pessoas que me queriam trazer alho ou cruzes ou outros remeios contra vampiros.

Mas perdoo-te tudo, Carlos, porque hoje sei que não foi por maldade que agiste como agiste, que viveste como viveste, foi por carencia de tantas coisas que não encontraste em ti e que - para poder sobreviver emocionalmente- roubaste dos outros, principalmente de mim.... "Roubaste" não é a palavra certa, ofereci, não me importava compartilhar riquezas de todos tipos, mas abusaste, e de tanto anseiar não receber o suficiente perdeste tudo porque eu, para não me perder a mim, tinha que construir fortalezas interiores para me proteger. Nestas fortalezas não havia janelas para Dracula poder entrar e beber.

Bateste na porta, com agressão, com desespero, as vezes até parecia carinho, mas não abri porque não tinha nada mais para te oferecer. Ficaste reduzido aos teus proprios sentimentos, a tua propria força, a tua propria vitalidade e a tua propria coragem..... e deixaste de lutar, deixaste de querer viver...... e morreste...

Na tua sepultura puseram flores de plástico. Simbolizam bem o que te ensinaram de menino: uma flor não tem que ser uma flor o que importa é a aparencia. Flores de plástico, sentimentos de plastico, as vidas convencionais, cascas vazias, máscaras sem caras detras......

Carlos, sou livre de ti, destrui as fortalezas, já não preciso esconder-me da vida. Na selva onde para ti só havia criaturas selvagens que te queriam comer eu encontrei a beleza e a autenticidade da vida e no deserto encontrei uma fonte e plantei um jardim que oferece espaço, oxigenio, sombra, calma, inspiração..... E sobre tudo convidei a muitas pessoas a compartilhar a vida neste jardim.

Fiquei capaz de amar e de confiar e por isso perdoo a ti e a mim termos sido tão insuficientes e imaturos , juntos, como casal e cada um por si. E porque hoje vejo muito claro o caminho a seguir, ficas no meu coração onde há tanto mais espaço que para só uma pessoa.

E se houver outra vida para ti, desejo-te que de menino recebas mais carinho autentico e menos aplausos e que tenhas a oportunidade de crescer e chegar a ser um homem e não ficar uma eterna criança, perdida no mundo e incapaz de assumir responsabilidades.

Vila Chã, 17.10.2008 - 12h-16h

11 comentários:

intimidades disse...

nao sei o que diga . por isso fico-me por beijinhos

Jokas

Paula

ALMARIADA disse...

...

fica-se sem palavras...

...

Multiolhares disse...

Bem forte este teu pensamento, esta tua carta,
é como dizes nem tudo é mau ainda existem seres que não sugam
o nosso sopro vital, mas tenho pena de pessoas assim como tu tiveste, pois são pessoas muito carentes, sem força interior, mas acabam por nos arrastar para o precipício
que finalmente ele tenha encontrado a paz

tocou-me de uma forma muito particular o que escreves sobre as
flores de plástico, pois também penso assim prefiro ver uma campa sem flores
do que falsos adornos

beijinhos

Gnóstico disse...

Desde que tenhas encontrado alguma paz de espirito no fim do processo já é positivo não? :)

LuCe disse...

Até podia ser um dos meus posts :) quando te apetecer,hás-de esvrever-me.

mena m. disse...

ão foi decerto fácil o passo que tomaste ao seguir outro caminho na tua vida,pelo que aqui escreves.
Quantas vezes sabemos que o caminho é o da mudança, mas ainda não temos força interior para começar a caminhada!
Libertaste~te e és feliz!
Que bom!
O que acho lindíssimo é que em vez de rancor deixaste que as flores do perdão crescessem no teu coração! Onde apesar de tudo ainda há um espacinho para alguém que muito amaste e que te fez conhecer
todas espécies de sentimentos: negativos e positivos.
És uma grande Mulher!!!!

Um abracinho

Anônimo disse...

Ontem, ao fim do dia, vim ao teu blog e ainda não havia 1 único comentário. Pensei para mim: ninguém comenta porque ficaram como eu...sem palavras!! E parece que acertei...

Intenso, fundo, autêntico, lúcido, desassombrado! Fiquei de tal modo impressionada que enviei a alguns amigos/as (com link para o teu blog). Dez minutos depois recebia este comentário de uma amiga: "Esta mensagem, se fosse amplamente divulgada,faria com que muita gente se reconhecesse nela.A vida é um percurso complicado e, muitas vezes ,temos dificuldade em distinguir o melhor caminho atempadamente".

Ah...e antes que me perguntes quem sou....sou a M (de Maria) que comentou o teu último post sobre budismo (e a questão das "paixões", falando sobre os eqzemas... ;-)

Mereces um abraço muito especial pelos "presentes" que nos vais trazendo! :-)

Beijo

M

Joaolsd disse...

Primeiro nasce o medo artificial, depois crescem as flores artificiais.

Sim, é preciso ser audaz para se ser feliz, mas não lhe chames cobardia - há processos tão complexos que se tornam irreversíveis, impedindo a capacidade de expansão na totalidade da vida.

o drama é não saber/poder dar nem receber.

por vezes gera-se uma interdependência resultante de conjunturas emocionais e é complicado estar a atribuir culpas a quem quer que seja.

o não reconhecimento de focos de não saber (ilusão) - não querer aprender (doença)

processo de violentação do ponto de vista, admitir a ignorância - catarse

purificação (queimar o que não interessa), rejeitar o que é danoso, há ao mesmo tempo algo que se mantêm, o que pode ser

adoro a tua escrita. és um ser maravilhoso.

beijos

mdsol disse...

Minha querida:

Como gostaria, neste momento, de te abraçar!
Deixo-te um beijo muito, mas muito sentido!

:)))

LuCe disse...

O meu comentário anterior foi algo depropositado. É no que dá ler à pressa, sem a atenção devida...

WOLKENGEDANKEN disse...

Obrigada a todos e todas pelos comentarios e opinioes e pela simpatia.

Desculpem nao responder a cada um como faco habitualmente, mas já costou-me escrever isso e nao quero ficar presa dum tema que já ocupou bastante tempo da minha vida.

e bemvindo joaolsd e obrigada pelo comentario interessante. ainda tenho que reflectir sobre cobardia e coragem.