falam, choram ou gritam sozinhas.

entre Carcavelos e Parede

Barreiro

bom, isso conhecem ....
Grande parte do caos que existe no mundo deve-se ao facto que as pessoas não se autovalorizam. Como jamais desenvolveram o sentimento de benevolência ou empatia por si mesmas, não conseguem experimentar o sentimento de paz ou harmonia interior, e por isso o que projetam para os demais é igualmente desarmônico e confuso.(...) Temos de aceitar a responsabilidade pessoal pela elevação de nossas vidas. CHÖGYAM TRUNGPA
Há tres anos - passaram hoje exactamente 3 anos desde que morreste. É por amabilidade e compreensão do meu director que aqui estou neste dia, dois dias antes de começar as minhas ferias oficiais. Ele é uma das muitas pessoas positivas que me rodeiam. Uma das muitas pessoas que me permitiram reaprender que o mundo não é uma selva onde cada um ocupa-se só de si mesmo e também não é um deserto poblado apenas por duas pessoas - tu e eu - duas pessoas que já nem se amam, nem se compreendem, nem se respeitam, nem sequer se aguentam....... Mas duas pessoas atadas de pes e mãos pela desgraça da tua doença, pela minha incapacidade de dizer " basta", atadas por tantas coisas absurdas: as costumes, os medos, a situação material, atadas por tudo, excepto por amor ...
Em nossa relação não faltou o amor ou mas bem não faltou o que eu então considerava amor. Amei-te, odiei-te, não existem muitas emoções que não despertaste em mim. Vivi intensamente, banhei-me todos os dias em emoções fortes, uma vela encendida dos dois lados ...
Durante muitos anos foste o centro do meu universo, adorava-te. Mas chegou o dia que compreendi que me tinha entregado completamente e que pouca coisa ficava de mim e foi então que comecei o caminho para me re-encontrar. E tu voltaste ao teu inferno privado poblado dos fantasmas do teu passado, das recordações, da culpa que reconheceste mas que não consegueste remediar. Voltaste a este inferno que eu já não queria compartilhar contigo mas que sozinho não aguentavas.
Nunca tiveste a força de arrumar e finalmente abandonar este inferno que tu mesmo criaste. Sofreste como um cão mas preferias sofrer em condições conhecidas a fazer um passo no desconhecido. Um passo para tentar encarar os teus fantasmas que te perseguiam pelo mundo, um passo para te libertar, COBARDE, não o tentaste nunca. "Melhor um mal conhecido que um bem para conhecer" dizias. Quanto detestava estas frases ! A essencia da informação é : "agarra-te ao que tens por mais inadequado que fosse para ti, nunca tentes nada novo, e se por grandissima coincidencia algum dia chegares a ser feliz, não acredites e fuge."
Foi no momento que eu compreendi isso que nos teriamos que ter separado. Mas como tantos casais não o fizemos, por medo de ter que desfazer a nossa relação simbiotica, de ter que nutrir cada um as suas proprias raizes, folhas, flores. A nossa relação foi simbiotica mas em vez de dar energia um ao outro o que fizemos foi envenenar-nos mutuamente. Os dois juntos não ficamos mais fortes, no contrario cada um ficou mais fraco e mais fragil.
Foiste para mim como Dracula: romantico, misterioso, interessante, mas todos os dias bebias a minha sangue, a minha energia, a minha vida. E eu mesma afastei todas as pessoas que me queriam trazer alho ou cruzes ou outros remeios contra vampiros.
Mas perdoo-te tudo, Carlos, porque hoje sei que não foi por maldade que agiste como agiste, que viveste como viveste, foi por carencia de tantas coisas que não encontraste em ti e que - para poder sobreviver emocionalmente- roubaste dos outros, principalmente de mim.... "Roubaste" não é a palavra certa, ofereci, não me importava compartilhar riquezas de todos tipos, mas abusaste, e de tanto anseiar não receber o suficiente perdeste tudo porque eu, para não me perder a mim, tinha que construir fortalezas interiores para me proteger. Nestas fortalezas não havia janelas para Dracula poder entrar e beber.
Bateste na porta, com agressão, com desespero, as vezes até parecia carinho, mas não abri porque não tinha nada mais para te oferecer. Ficaste reduzido aos teus proprios sentimentos, a tua propria força, a tua propria vitalidade e a tua propria coragem..... e deixaste de lutar, deixaste de querer viver...... e morreste...
Na tua sepultura puseram flores de plástico. Simbolizam bem o que te ensinaram de menino: uma flor não tem que ser uma flor o que importa é a aparencia. Flores de plástico, sentimentos de plastico, as vidas convencionais, cascas vazias, máscaras sem caras detras......
Carlos, sou livre de ti, destrui as fortalezas, já não preciso esconder-me da vida. Na selva onde para ti só havia criaturas selvagens que te queriam comer eu encontrei a beleza e a autenticidade da vida e no deserto encontrei uma fonte e plantei um jardim que oferece espaço, oxigenio, sombra, calma, inspiração..... E sobre tudo convidei a muitas pessoas a compartilhar a vida neste jardim.
Fiquei capaz de amar e de confiar e por isso perdoo a ti e a mim termos sido tão insuficientes e imaturos , juntos, como casal e cada um por si. E porque hoje vejo muito claro o caminho a seguir, ficas no meu coração onde há tanto mais espaço que para só uma pessoa.
E se houver outra vida para ti, desejo-te que de menino recebas mais carinho autentico e menos aplausos e que tenhas a oportunidade de crescer e chegar a ser um homem e não ficar uma eterna criança, perdida no mundo e incapaz de assumir responsabilidades.
Vila Chã, 17.10.2008 - 12h-16h
5 horas de vigilancia nos corredores. Extremamente aborrecido mas bem remunerado ........
Olhando para as caras aqui nota-se uma certa .... falta de motivação :))

